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Jornalismo Livre: uma proposta para a incorporação da liberdade na prática jornalística
Rafael Evangelista e Tiago Soares
Jornalismo open source, o que é? Que exemplos existem?
Termo usado pela primeira vez (1999) em salon.com, como título de uma matéria que contava experiência de jornalista da Jane's Intelligence Review (revista militar/de espionagem). Autor submeteu texto a público do slashdot, que desmontou o artigo completamente, obrigando o autor a reescrevê-lo.
Mark Deuze, na firstmonday.org (revista de soc. da tec.) define OSJ: “O uso das assim chamadas fontes 'abertas' na internet para a checagem dos fatos” [2]. E continua: “A idéia fundamental por trás do Open-Source Journalism parece ser uma forma avançada de jornalismo comunitário, cívico ou público: envolvendo a audiência na (manufatura das) notícias, criando sites com um tipo de conteúdo criado por seus usuários (...)”
Catarina Moura [4] cita o Slashdot como um site que marca o início da era do Open-Source Journalism. Ela destaca algumas características que o aproximam da idéia de Open-Source Journalism, como: “permitir que várias pessoas (que não apenas os jornalistas) escrevam e, sem a castração da imparcialidade, dêem a sua opinião, impedindo assim a proliferação de um pensamento único, como o pode ser aquele difundido pela maioria dos jornais, cuja objectividade e imparcialidade são muitas vezes máscaras de um qualquer ponto de vista que serve interesses mais particulares que apenas o de informar com honestidade e isenção o público que os lê”.
Mas, fundamentalmente, o que o Slashdot publica são notícias. Essas podem ser escritas por seus usuários ou apresentadas apenas na forma de links para outros sites. A intervenção do usuário não se dá propriamente no texto da notícia (embora possam publicar textos próprios, algo porém raro) mas sim na pontuação que atribui a cada link e nos comentários que faz, estes, por sua vez, também pontuados.
Wikinews: experiência da wikipedia aplicada às notícias. Site construído colaborativamente entre os leitores. Textos coletivos, consensuais.
Elos entre jornalismo open source e OSS
Mas há algo que caracteriza o movimento open source (e também o software livre, embora esta não seja sua ênfase), que o aproxima ainda mais da primeira experiência do Open-Source Journalism e do veículo onde foi realizada, o Slashdot, do que da Wikinews. O termo Open Source e sua instituição política surge sob forte influência do trabalho de Eric Raymond, A Catedral e o Bazar. Nele, Raymond critica um determinado modelo de desenvolvimento de software (que chama de Catedral) em que o código é controlado por um pequeno grupo, que o desenvolve de uma maneira centralizada. No livro, ele elogia o método que teria sido aplicado por Linus Torvalds no desenvolvimento do kernel Linux, em que Torvalds disponibilizaria com frequência o código que estava desenvolvendo e, assim, receberia sugestões e relatos de testes feitos por uma gigantesca e independente comunidade de usuários/programadores na internet. “Libere cedo, libere frequentemente [o código]”, é um dos princípios do desenvolvimento que Raymond chama de Bazar.
Embora seja uma experiência bastante interessante, a aplicação do chamado esquema “Bazar” ao jornalismo traz alguns problemas e limitações. Antes, porém, há de se afirmar suas virtudes.
Rompimento com o esquema “de cima para baixo” para a produção de notícias, participação do público na produção.
Porém, nos dois projetos que aqui consideramos como exemplares do que tem sido chamado de Open-Source Journalism, o Slashdot e o Wikinews, essa condição do leitor que é livre para usar/modificar/alterar/copiar a notícia é interpretada de modo diferente.
No Slashdot, cabe ao leitor comentar/validar/selecionar uma determinada notícia, e essa sua contribuição é algo que se acrescenta, quase que modularmente (pois não interfere no texto), à notícia original. Já no Wikinews a contribuição é completa, materializada na alteração do texto original, em que a participação de vários indivíduos se funde. Contribuição no Slashdot: comentários, avaliações, sugestões.
Contribuição do público no Wikinews: radical, todos podem alterar o texto, com a versão a ser exibida sendo a mais recente (embora as prévias possam ser recuperadas). Cada texto é fruto da contribuição de um coletivo anônimo de pessoas, dirigidas apenas pela política de “imparcialidade” descrita no projeto editorial. Quem assume a autoria é o coletivo e, imagina-se, o texto será o mais próximo possível da média das opiniões dos autores.
Quanto à credibilidade e linguagem, esse modelos de Open-Source Journalism dão origem a alguns efeitos: a credibilidade desloca-se para o campo do coletivo, informações são tidas como confiáveis se fiscalizadas e reconfiguradas por batalhões de gatekeepers-redatores-editores-moderadores; ao mesmo tempo, a linguagem, mesmo distanciando-se das regras dos grupos de mídia, adapta-se ao todo da "construção coletiva", o que, de certo modo, não deixa de ser uma pasteurização. Em meio a um mar de informação produzida coletivamente, a escolha desses dois projetos é pautar-se pela média do gosto (ou das visões, ou das opiniões) geral.
Problemas: Slashdot: interferência não é no texto. Wikinews: texto é coletivo, determinado pelo gosto médio, opinião média.
Jornalismo livre: uma proposta Propomos a utilização do conceito de Jornalismo Livre e, com ele, a construção de uma nova metodologia que incorpora, de uma maneira mais orgânica, a liberdade proposta pelo movimento software livre, como forma de vencer os problemas levantados. Neste sentido, é importante levar em consideração ser esta uma proposta baseada numa intrínseca relação entre o trabalho jornalístico e sua plataforma tecnológica - no caso, o ambiente web, e sua variada gama de tecnologias (ferramentas de publicação dinâmica, hiperlinks, compartilhamento de dados, entre outros) que, inevitavelmente, levam a uma revisão da linguagem e da dinâmica do jornalismo. Papel do jornalista web: Partimos do princípio segundo o qual o jornalista seria, simplificadamente, o responsável pelo levantamento do fato ou informação, sua checagem, sua análise em vista de outros fatos ou informações e, finalmente, da "construção" de "recorte" determinado da realidade para apresentarmos uma proposta de jornalismo colaborativo em suporte web.
Analogia: Jornalista como compilador de diversas fontes que produz um executável, o texto.
Pensamos que a analogia mais interessante e produtiva a ser feita é entre o trabalho do jornalista e a função desempenhada pelos programas compiladores. A liberdade do movimento software livre não se baseia no compartilhamento de programas em sua forma executável. Se assim fosse, os desenvolvedores não seriam capazes de alterá-lo e modificá-lo. É a partir do código fonte compartilhado que outros programas, melhores ou simplesmente com funções diferentes, podem ser criados. A partir do código fonte livre, o desenvolvedor incorpora suas idéias, sua visão. Só então o código fonte alterado é compilado, ou seja, verifica-se se aquilo tudo é consistente, se é adequado àquela máquina (realidade), e um programa executável é gerado e pode ser utilizado por todos.
Da mesma forma, o jornalismo livre deve partir do compartilhamento, da abertura, de suas fontes, ou seja, da pesquisa que o jornalista realiza para dar origem ao seu texto final (seu “programa executável”). Este, depois de pronto, deve possuir unidade, ser a visão consolidada e referendada por um determinado autor, que foi responsável por compilar todas as informações, verificar sua consistência, contrapô-las à sua experiência e história de vida (seu “hardware”) e dar seu formato final - É claro, a atividade de um jornalista não se resume à compilação. Esta é apenas uma analogia interessante, que nos serve para orientar um modelo de texto pensado principalmente – mas não exclusivamente - para a internet.
O Jornalismo Livre apostaria também na credibilidade do autor, em seu mérito como indivíduo responsável pelo "processamento da informação". Uma vez que disponível na web, o material jornalístico a servir como base para seu trabalho é deixado à disposição do leitor, verificável. Este pode livremente assumir a posição de seu predecessor, se relacionar com as mesmas fontes, acrescentar outras (ou não) e produzir um outro texto, com outra interpretação.
O Jornalismo Livre pode, inclusive, ter regras que permitam toda e qualquer reconfiguração do texto. Assim como a versão executável de um software pode ser recompilada se contiver as fontes, isso também pode acontecer com o texto. Para cada texto livre produzido deve ser possível gerar uma nova versão, que pode ser um aperfeiçoamento (conter mais pesquisa) ou apenas uma nova formulação do texto original, em que se novos sentidos são construídos pois as fontes são olhadas sob outra perspectiva.
A regra para um texto livre deve ir além da permissão de republicação, deve conter obrigações que existem também em documentos como a GPL, a licença mais usada pelos softwares livres. A GPL propõe que o código fonte deve sempre acompanhar o programa executável e que novos programas gerados a partir de códigos fontes livres também devem ser livres. Para o Jornalismo Livre, a regra deve ser a mesma: um texto produzido a partir de material livre também deve manter suas fontes livres. É claro, nem sempre é possível revelar as fontes no jornalismo mas ter isso como norma pode ser interessante.
Notas
[1] Leonard, A. "Open-source journalism," Salon (8/10/1999), em http://www.salon.com/tech/log/1999/10/08/geek_journalism/index.html [2] Deuze, M. Online Journalism: Modelling the First Generation of News Media on the World Wide Web. First Monday, volume 6, number 10 (OUTUBRO 2001),URL: http://firstmonday.org/issues/issue6_10/deuze/index.html [3] Bowman, S e Willis, C We Media: how audiences are shaping the future of news and information . Em http://www.hypergene.net/wemedia/weblog.php [4] Moura, C. “O jornalismo na era Slashdot” Em http://www.bocc.ubi.pt/pag/_texto.php?html2=moura-catarina-jornalismo-slashdot.html [5] http://wired-vig.wired.com/news/print/0,1294,21448,00.htm [6] Breier, L. “Slashdot e os filtros no Open Source Journalism” Em http://www.bocc.ubi.pt/pag/_texto.php?html2=breier-lucilene-slashdot.html [7] Evangelista, R. “Política e linguagem nos debates sobre o software livre”. Dissertação de Mestrado. Instituto de Estudos da Linguagem. Unicamp, 2005.
Publicado en la wiki del III Festival de Software Libre de Bahia (Brasil) en Cobertura Wiki (coberturawiki.net). Resumen de un texto aparecido en OPlanoB. Reproducido en Tribuna de los Medios el 25 de agosto 2006.
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