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A falta que
fazem os profissionais
Luiz Weis
A discussão sobre o que talvez possa ser chamado "jornalismo blogosférico"
acaba de ficar mais substancial com a publicação do artigo "Amateur Hour –
Journalism without journalists", de Nicholas Lemann, repórter de mídia da
New Yorker, na última edição da revista (ver
artículo en inglés).
Ele lança um bem-vindo olhar crítico sobre o "jornalismo-cidadão" de que
fazem praça os 4 milhões de auto-intulados jornalistas entre os 12 milhões
de blogueiros americanos.
Com o termo eles se atribuem uma superioridade ética na prática do ofício
em comparação com os praticantes empregados na mídia convencional –
pejorativamente chamada mainstream media ou MSM – tidos como arrogantes
donos-da-verdade, cegos e surdos aos verdadeiros interesses da cidadania.
"Cidadãos-jornalistas", explica Lemann, "são supostamente amadores
inspirados que descobrem o que acontece ali onde eles vivem e trabalham, e
nos oferecem um quadro mais completo e rico do mundo do que o das
organizações noticiosas tradicionais, ao mesmo tempo em que nos poupam da
pompa e do exibicionismo que os jornalistas frequentemente ostentam".
"Esse é o catecismo", ironiza o repórter, antes de fazer a pergunta
incômoda: "Mas o que será que o jornalismo-cidadão de fato nos
proporcionou?"
Cultura jornalística
Ele considera a sua própria pergunta difícil de responder, entre outras
coisas por uma razão inesperada: o receio dos céticos de externar o seu
ceticismo, por causa da capacidade dos crentes do bloguismo de tornar
desagradável a vida dos críticos.
"Até agora", ressalta Lemann, nenhum 'jornalista tradicional' foi bobo de
assumir e defender a idéia de pertencer a uma elite da qual cidadãos
comuns são barrados." E dá uns exemplos da agressividade com que os
blogueiros reagem a quem sugira, como o repórter John Markoff, do New York
Times, que as novas tecnologias de informação conseguem destruir velhos
padrões sem criar algo melhor para pôr no seu lugar.
E o que seria esse "melhor"? Um jornalismo à altura (ou quase) do caráter
revolucionário do novo meio de comunicação. Não basta ao jornalismo
blogosférico postular para si um elevado padrão no plano conceitual – a
prática tem que confirmar a teoria.
Lemann recorre numa erudita comparação histórica com os panfletos e
periódicos cheios de verve, ousadia e contundência que pululavam na
Inglaterra no final do século 17 e início do 18, uma centena de anos antes
do surgimento dos primeiros jornalões na ilha – o Times e o Guardian.
"Pelo menos em parte", prevê, "o jornalismo na internet também começará a
se diferencial pelo tom, tentando soar responsável e digno de crédito, na
expectativa de arregimentar um público maior e, possivelmente, pagante."
Por enquanto, há de tudo na blogosfera, mas nada que já tenha alcançado o
patamar de uma cultura jornalística rica o suficiente para competir a
sério com a velha mídia – "para substituí-la em vez de complementá-la",
diagnostica Lemann – e este leitor colocou a frase em itálico para
assinalar a sua concordância com ela.
Jornalismo-cidadão
Nos Estados Unidos, as maiores proezas blogueiras foram acabar com a
carreira do celebrado âncora Dan Rather, cuja equipe usou documentos
duvidosos para provar que Bush não serviu de verdade na Guarda Nacional,
no tempo do Vietnã, e derrubar Trent Lott da liderança da maioria no
Senado, ao expor seus comentários racistas.
As violações dos direitos civis cometidas pelo governo Bush em nome da
guerra ao terrorismo foram reveladas pelos jornalões à moda antiga e redes
de TV, não por jornalistas da internet.
No Brasil, blogueiros furam de vez em quando a mídia convencional, na
versão impressa ou eletrônica, e oferecem com freqüência pensatas mais
numerosas e diversas do que as da imprensa no dia-a-dia.
Só quem nunca abriu um computador desconhecerá as contribuições da
blogosfera brasileira para a disseminação de informações e opiniões sobre
assuntos de interesse público. Mas nem por isso ela suplanta, ou substitui
a velha imprensa. Se já não dá para passar sem ler um certo
número de blogs, menos ainda dá para passar sem ler no mínimo um jornal
por dia.
Lemann também dá ao jornalismo-cidadão os seus devidos créditos – até
porque a modalidade ajudou a salvar a vida do pai e da madrasta dele,
graças às informações instantâneas e corretas sobre como fugir de carro da
New Orleans devastada pelo furacão Katrina no ano passado. "Mas, com o
passar do tempo", qualifica, "a melhor informação sobre por que o furacão
causou tanta destruição na cidade veio mesmo de repórteres, não de
cidadãos."
Repórteres, procura-se
Em condições normais, o material produzido pelo jornalismo blogosférico
não consegue provar que o cidadão pode se manter a par da vida pública sem
a mediação de profissionais. Comparando ambições teóricas e resultados
práticos, e transcrevendo exemplos sintomáticos,
Lemann diz que é quase impossível não pensar: "Isso é a razão de tanto
barulho?"
A internet não é hostil à categoria de informação chamada reportagem:
potencialmente, acredita ele, é o melhor meio já inventado para informar.
A internet precisa ser aproveitada para se descobrir novas maneiras de
apresentar material informativo – que, inevitavelmente, se transformará em
material jornalístico robusto, "produzido por quem o faz em tempo
integral", aponta Lemann, "não por 'cidadãos' nas horas livres".
A internet precisa atrair repórteres em vez de afastá-los, conclui, no que
parece ser uma forma original de encarar a dicotomia jornalistas x
não-jornalistas na blogosfera.
El presente artículo fue publicado el 8 Agosto 2006 en
Observatório da Imprensa (Brasil), y reproducido el 25 agosto 2006 en
Tribuna de los Medios.
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